segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

“O VERBO FEZ-SE CARNE E HABITOU ENTRE NÓS. E NÓS VIMOS A SUA GLÓRIA” - Homilia do dia de Natal de 2009 do senhor Bispo de Santarém

A terceira missa de Natal que estamos a celebrar convida-nos a contemplar o mistério do acontecimento natalício. Enquanto a missa da meia-noite ou do Galo descreve de uma forma viva e movimentada a cena do nascimento do Menino, o anúncio aos pastores e a visita destes ao presépio de Belém, a celebração do dia apresenta-nos uma meditação de grande profundidade e beleza espiritual, feita pelo evangelista São João, acerca da identidade do Menino que nasceu e do significado do seu nascimento. Na simplicidade encantadora do presépio manifesta-se o mistério que o evangelista resume nestas palavras: “O Verbo fez-se carne”. O Filho de Deus e Sua palavra eterna assumiu a condição humana. Deus apresenta-se no meio de nós na fragilidade e na pobreza de uma criança. O Menino reclinado numa manjedoira revela-nos a verdade de Deus e a verdade do homem. “Fez-se o que somos para nos fazer participantes do que Ele é” (S. Cirilo de Alexandria).
Porque é que Deus se tornou homem? Para habitar connosco, diz a narrativa evangélica. O Natal celebra a visita do Verbo de Deus, não uma visita de passagem mas para permanecer. Deus partilha a nossa condição humana, está próximo de todo o que nele crê e O invoca, mostra-se um amigo, irmão e companheiro em quem podemos confiar. Compreendemos, assim, o alcance profundo da afirmação que fazemos. “Deus está connosco” ou “Deus está comigo”. É um vizinho excelente que veio morar no meio de nós e a quem podemos bater à porta.
São João refere outro objectivo da sua vinda: “Nós vimos a Sua glória”. Ou seja, o Natal torna Deus visível. Várias vezes os textos bíblicos repetem a invisibilidade de Deus. É óbvia para nós. “A Deus nunca ninguém o Viu”, afirmava o texto de São João. Tantos justos desejaram ver e pediram para ver: “O Vosso rosto eu procuro Senhor, não escondais de mim o vosso rosto”. “Mostrai-nos Senhor o Vosso rosto”. Nós sabemos que Deus não tem rosto, é invisível. Mas desejaríamos ver ao menos um sinal, ter uma manifestação, uma prova que apoiasse a nossa fé. Porque Deus parece escondido e para muitos parece mesmo ausente.
Ora o Natal, diz São João, torna Deus visível: “A Deus nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito que está no seio do Pai é que O deu a conhecer”. O mistério da Encarnação deu um rosto a Deus. Quando Tomé pediu a Jesus “Senhor mostra-nos o Pai”, Ele respondeu: “Quem me vê, vê o Pai”. Na verdade, Jesus torna visível o rosto de Deus. Quando Jesus entra em casa de Pedro e cura a sogra, quando come e bebe com os pecadores, quando perdoa aos pecadores (ao explorador Zaqueu, à Madalena arrependida, ao paralítico estendido na enxerga), Ele dá visibilidade ao Deus. Um Deus amigo do homem, próximo, misericordioso.
Jesus é, na verdade, o sinal de Deus por excelência. Há outros sinais visíveis, como a Escritura, o universo, os crentes, a experiência religiosa de tantos que sentiram a sua protecção, viveram em união mística com Ele e mudaram as suas vidas. Várias vezes, nos textos desta celebração, ouvimos a possibilidade de ver alguns sinais em que Deus se manifesta. Em Isaías, os mensageiros da Boa Nova vêem com seus próprios olhos o Senhor que volta para viver com seu povo em Sião. E o salmo vai mais longe ao proclamar que todos os confins da terra viram a salvação do nosso Deus. É uma visão no sentido amplo, com o olhar da fé. Mas num ambiente de descrença todos precisamos de procurar o rosto de Deus e de descobrir sinais visíveis da Sua presença.
As leituras desta missa sugerem-nos um caminho acessível a todos, em que podemos fazer uma experiência pessoal de entrar em contacto com Deus e descobrir mais profundamente o Seu rosto. A Carta aos Hebreus esclarecia neste sentido: “Antigamente Deus falou muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos profetas”. As Sagradas Escrituras, são, na verdade, uma ponte para entrar em contacto com Deus e dialogar com Ele. A referida Carta continuava: “Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos pelo seu próprio Filho”.
Na mesma linha, o evangelho de São João designa o Filho como o “Verbo” ou Palavra eterna de Deus. “Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens”. Portanto, quando escutamos atentamente ou fazemos uma leitura meditada e interiorizada da Sagrada Escritura, Deus vem conversar com Seus Filhos. Através dos textos bíblicos temos a possibilidade de dialogar com Deus, como se dialoga com um amigo. Assim, a Bíblia deixa de ser letra morta e torna-se palavra viva de Deus.
Este é um caminho acessível para nos encontrarmos com o Senhor, para descobrir o rosto invisível de Deus. Ouçamos Santo Hipólito, teólogo do séc. III:
“Único é o Deus que conhecemos, irmãos, e não por outra fonte que não seja a Sagrada Escritura. Devemos, pois, saber o que as divinas Escrituras anunciam e compreender o que ensinam. Devemos conhecer o Pai como Ele quer ser conhecido, glorificar o Filho, como o Pai quer que O glorifiquemos e receber o Espírito Santo como Ele no-lo quer conceder. Esforcemo-nos por chegar à compreensão das realidades divinas, não segundo o nosso arbítrio e interpretação pessoal, nem fazendo violência aos dons de Deus, mas seguindo os caminhos que o mesmo Senhor nos deu a conhecer nas santas Escrituras”
A leitura meditada e orante da Bíblia, (que designamos por “lectio divina”), a princípio não é fácil. Mas com exercício perseverante e com o apoio de um grupo bíblico, leva-nos adquirir gosto e a alcançar fruto. “Scriptura crescit ***** legente” (S. Gregório). Assim o Verbo ou Palavra eterna de Deus torna-se luz e vida na nossa existência, leva-nos a contemplar a glória de Deus e a receber a sua graça e verdade.

+ Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém

sábado, 26 de Dezembro de 2009

Natal com os agnósticos e os ateus - Homilia do Cardeal-Patriarca na Missa do Natal do Senhor

À procura do Rosto de Deus

1. O início do Evangelho de São João, que agora escutámos, resume bem o que significa para o homem esta ousadia do amor de Deus, que foi fazer-se Homem. “A Deus nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” (Jo. 1,18). Está explicado o motivo de Deus para a encarnação do seu Verbo eterno: para que o homem O pudesse conhecer, pudesse ver o Seu rosto. Ver o rosto de Deus, conhecê-l’O face a face, foi um anseio profundo dos crentes de Israel. Moisés, o homem de Deus, com quem Deus falava como um amigo fala ao seu amigo (cf. Ex. 33,11), no alto do Sinai, ousa pedir: “Senhor, deixa-me ver o Teu rosto” (Ex. 33,18).
Este desejo brota da fé de Israel. Só se deseja conhecer o rosto de um amigo, de alguém que sentimos perto de nós. O crente de Israel sofre a tensão de uma dupla experiência: a certeza de que Deus está presente, interessa-se pelo Povo, nas maravilhas que realiza em seu favor, é um Deus que deseja intimidade; mas, por outro lado, Ele é um mistério difícil de alcançar, o que leva o Salmista a exclamar: “Tu és, na verdade, um Deus escondido” (Is. 45,15). Tudo isto faz ressaltar o dom inaudito da Encarnação: em Jesus Cristo pode contemplar-se o rosto de Deus. Ele é a derradeira atitude de Deus para se tornar próximo e se dar a conhecer ao Seu Povo, Ele que “muitas vezes e de muitos modos falou antigamente aos nossos pais, pelos profetas e que, nestes dias que são os últimos, nos falou por Seu Filho” (He. 1,1ss).
2. Já Isaías enalteceu os mensageiros que trazem a notícia do regresso de Deus a Sião, que leva todos a soltar brados de alegria porque vêem, com os próprios olhos, Deus que volta para Sião. O Profeta acredita que esse regresso de Deus à intimidade com o Povo da Aliança será o ponto de partida do anúncio do Deus vivo a todos os povos do mundo. “O Senhor descobriu o seu santo braço à vista de todas as nações e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is. 52,10). Esta consciência de que o Povo do Senhor terá como missão anunciar o Deus vivo a todos os povos, radicalizar-se-á em Jesus Cristo e na sua Igreja, que é sacramento de salvação para todos os povos. Ir por todo o mundo a anunciar a salvação de Deus, em Jesus Cristo, é a missão da Igreja, expressa no último envio dos Apóstolos, por Jesus: “Todo o poder Me foi dado no Céu e na Terra; ide, pois, e fazei discípulos em todas as nações” (Mt. 28,18).
Este anúncio do profeta do regresso de Deus a Sião é o anúncio do Messias, da encarnação do Verbo de Deus. Nunca como em Jesus Cristo, Deus esteve presente no meio do seu Povo. Esta vinda de Deus para Sião não foi facilmente reconhecida pela totalidade do Povo. São João reconhece-o: “Veio para o que era seu e os seus não O receberam” (Jo. 1,11); “a luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam” (Jo. 1,5). Este é um dos grandes paradoxos da história: um povo oficialmente crente em Deus, não reconhece Deus que o visita.
Este paradoxo verifica-se hoje, na nossa sociedade. Somos um povo cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, em que a grande maioria dos portugueses são baptizados, mas que celebrando o Natal de forma cultural, não reconhece em Jesus o Deus que o visita.
O Natal interpela, antes de mais, a Igreja. O nascimento de Jesus é uma proposta de intimidade com Deus que vem, sempre de novo, ao nosso encontro em Jesus Cristo. Se não vivermos a profundidade e a surpresa desse encontro, não o podemos anunciar com convicção, não seremos o lugar a partir do qual é anunciado ao mundo o verdadeiro Deus.

3. Só esse anúncio, que seja testemunho do encontro com o rosto de Deus no rosto humano de Jesus, será luz que brilha nas trevas, vencerá a indiferença, o agnosticismo e mesmo o ateísmo. Hoje, na nossa sociedade, há alguns que negam mesmo a existência de Deus, atitude que pode parecer clara na lógica da razão, mas que não tranquiliza o coração. Outros refugiam-se na atitude agnóstica de quem não se pronuncia, de quem não sabe dizer nada sobre Deus, que respeitam os crentes mas não se sentem interpelados por eles, esquecendo que há inquietações profundas que dificilmente se podem calar, que “o coração tem razões que a razão desconhece”, na expressão popular que tenta definir o amor. Mas a maior parte dos nossos contemporâneos adiam sempre, para mais tarde, uma tomada de posição sobre Deus, acabando assim por adiar um encontro com o próprio Deus. No diálogo com todos estes nossos irmãos devemos apresentar-nos na humildade da nossa fé, que se gera certezas inabaláveis, sem sempre exclui a obscuridade e a dúvida. Temos em comum com todos os que procuram, o nosso desejo de ver a Deus, de poder contemplar o Seu rosto.
A compreensão da fé, em todo o Novo Testamento, é uma adesão a Jesus Cristo como caminho para a visão de Deus. A sua expressão mais forte é a esperança, que vence obstáculos e dificuldades, desejando ver a Deus face a face. Em São Paulo é clara essa compreensão da fé como caminho humilde e confiante à procura do rosto de Deus. Aos Coríntios ele escreve: “hoje vemos como num espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita, mas então conhecerei como sou conhecido” (1Cor. 13,12). O encontro perfeito e definitivo com Cristo é para Paulo o cumular da esperança.
Contemplemos o nascimento de Jesus celebrando a sua Páscoa. Esta proporciona-nos, continuamente, o encontro vivo com Ele, por via sacramental, e assim vamos aprendendo a desejar, sempre mais, aquele momento em que, no Seu rosto, contemplaremos o rosto de Deus.

Sé Patriarcal, 25 de Dezembro de 2009

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

A Liturgia é anúncio da Salvação - Homilia de D.José Policarpo na Noite de Natal

1. A Igreja tem, como missão prioritária, anunciar a salvação definitivamente realizada em Jesus Cristo. Fá-lo de muitos modos, mas o mais eficaz é o testemunho da vida, a fé traduzida em experiência de salvação. É a densidade do testemunho que dá autenticidade à palavra. As expressões da fé vivida que mais tocam os corações são a sua celebração pela comunidade crente e o amor fraterno. É por isso que a Liturgia é, na sua verdade mais profunda, anúncio da salvação e meio para a missão evangelizadora da Igreja.
Na Liturgia, de modo particular na celebração da Eucaristia, a comunidade cristã escuta a Palavra do Senhor com o coração aberto e comovido, acolhe o dom de Jesus Cristo que se entrega de novo à Sua Igreja, expressão do infinito amor de Deus por nós, une-se e identifica-se com Cristo a ponto de se entregar pela salvação de todo o género humano. Na Liturgia, a Igreja vive a salvação, identifica-se com Cristo, deseja renovar-se com a força do seu amor e participa já do júbilo da Pátria celeste. A celebração da Eucaristia é o momento da verdade da Igreja, que lhe dá autoridade para anunciar a salvação. A partir dela, os crentes são enviados, sempre de novo, para o meio do mundo, para anunciarem com a vida e com a palavra o dom da vida nova. A força anunciadora dessa vida e dessa palavra, é a da Eucaristia que celebraram. Toda a evangelização parte da Eucaristia e converge para a Eucaristia.
Estamos a celebrar o Natal. A Liturgia desta noite tem de ser anúncio de Jesus Cristo, a expressão do amor de Deus por nós que Ele encarnou, isto é, humanizou, exprimiu na nossa realidade humana. O Natal é uma festa cristã enriquecida culturalmente de forma muito bela, exprimindo valores e anseios fundamentais da família humana: a harmonia, a paz, o calor da convivência, a partilha de dons, a descoberta da dimensão festiva da vida. Mas só a densidade da celebração litúrgica tem a força transformadora de um anúncio, se nela acolhermos de novo o Filho de Deus feito homem como manifestação do amor de Deus por nós, se nos abrirmos mais radicalmente ao dom da salvação.

2. Não é por acaso que os três textos da Sagrada Escritura que, nesta celebração, nos foram proclamados para os escutarmos como a Palavra amorosa que Deus nos diz esta noite, são três textos de anúncio desse momento decisivo da humanidade que foi o nascimento de Jesus. O primeiro anúncio é feito por um mensageiro de Deus, um Anjo: “Anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje, na Cidade de David, um Salvador que é Cristo Senhor” (Lc. 2,11). O nascimento de Jesus é anunciado como o dom da salvação, acto decisivo de Deus para resgatar a humanidade. Já tinha sido assim que outro mensageiro divino o tinha anunciado a Maria: “Conceberás e darás à luz um Filho e dar-lhe-ás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-lhe-ão Filho do Altíssimo” (Lc. 1,31-32). Neste anúncio é claro que a salvação é obra amorosa de Deus, só Deus nos pode salvar. A alegria anunciada é a alegria da salvação.
O segundo anúncio é feito pelo Profeta Isaías, a um Povo que esperava a salvação como concretização última da fidelidade do Deus da Aliança. “Um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz” (Is. 9,5-6). Para Isaías é claro que Deus estará presente neste Menino, que terá a realeza de Deus e a salvação anunciada consistirá numa paz duradoira e no triunfo da justiça.
O terceiro anúncio acontece já no seio da Igreja nascente, na realidade da salvação vivida e procurada por aqueles que se uniram a Jesus Cristo. A salvação é agora experiência nova da vida em Cristo, participação da novidade pascal da ressurreição, processo a realizar-se com a força do Espírito e que permite esperar poder um dia participar no triunfo final de Jesus Cristo. Este anúncio é expresso por São Paulo na sua Carta a Tito: “Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens” (Tit. 2,11).
3. Esta celebração, pela densidade da sua fé, tem de ser anúncio, antes de mais para nós que aqui estamos reunidos com o Senhor e em seu nome. É a partir de nós, através do nosso testemunho, que será inevitável e espontâneo, à nossa sociedade, aos nossos irmãos e irmãs que celebram o Natal sem lhes captar a mensagem, a densidade da alegria. Que aqueles três anúncios da Palavra de Deus inspirem o nosso coração para acolher, de novo, o anúncio da salvação e orientem o nosso testemunho às pessoas que nos rodeiam. Sintetizemos o conteúdo dessa mensagem:
* Antes de mais, Jesus, o Menino que nasceu em Belém, é o Filho de Deus. Ele é chamado Filho do Deus Altíssimo, tem todo o poder sobre os seus ombros, que se manifestará plenamente depois da ressurreição. Ele tem a realeza do Messias esperado: os cristãos aprenderam a chamar-lhe Senhor. Contemplar o presépio sem acreditar na divindade daquele Menino é não permitir que o nosso olhar penetre na profundidade do mistério.
* Ele é o Salvador, porque é Deus, tem o poder de recriar. Só Deus nos pode salvar. Porque é homem, sabe como este último desafio de Deus se pode concretizar na nossa realidade humana. Ele sabe que o segredo do homem é o seu coração, e que se aceitar de Deus um coração novo, toda a sua vida mudará, porque será transformada pelo amor. Maria, a Mãe, a mulher de coração imaculado, diz-nos como isso é possível e onde nos levará.
* Apontam-se, depois, os primeiros frutos da salvação nos corações renovados: a alegria, a paz, a justiça. O mundo actual perdeu o sentido da verdadeira alegria, e vai-se afastando dela. Procura-a por caminhos frenéticos de excitação, na busca de prazeres, de interesses, de fruição dos bens materiais, tudo isto em ritmos alucinantes, que provocam a solidão e, quase sempre, a tristeza. A alegria é experiência simples e profunda, brota dos corações puros e generosos.
A encarnação do Verbo de Deus ensina-nos que só o amor generoso, a experiência da generosidade, do dom e da partilha, a contemplação da beleza dos outros homens, meus irmãos, são caminhos da verdadeira paz. Só o Natal nos faz perceber que a justiça é a concretização da verdade profunda do homem, chamado a viver em comunhão com os outros homens e que só homens justos podem ser obreiros da justiça.
4. Acolhamos a mensagem desta celebração, empenhando-nos nela e faremos, talvez, a experiência de uma alegria, que sendo humana, não se reduz a nenhuma realidade deste mundo. Talvez percebamos de novo o que queremos dizer uns aos outros quando nos saudamos, desejando “Bom Natal”, “Santo Natal”.

Sé Patriarcal, 24 de Dezembro de 2009

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

HOMILIA DO SENHOR BISPO DE SANTARÉM NA SOLENIDADE DA PADROEIRA DA DIOCESE E DA SÉ – 2009

A solenidade da Imaculada Conceição desperta nos fiéis cristãos grande alegria e intenso louvor. Mãe do amor formoso, glória do povo de Deus, honra da Igreja, modelo dos fiéis, nova Eva que inicia a geração das novas criaturas santificadas pelo Espírito Santo, Nossa Senhora da Imaculada Conceição é profundamente admirada e venerada por todo o povo cristão. Proclamada em 1646 Padroeira do Reino de Portugal, por Dom João IV, é também a padroeira da nossa diocese e de muitas paróquias.
Nossa Senhora, isenta do pecado original desde a sua concepção, é para todo o povo de Deus, um sinal de esperança no percurso para a santidade. Na verdade, na beleza espiritual da Virgem Imaculada, Deus manifesta a salvação que esperamos e preparamos no Advento. Ela coloca diante de nossos olhos, de forma acessível e fascinante, a santidade, a justiça e a paz que Cristo veio trazer ao mundo. Na sua atitude de serviço humilde e confiante, na sua disponibilidade e solidariedade, Maria de Nazaré mostra as maravilhas que Deus realiza em todos os que acolhem a vinda de Jesus. Podemos, portanto, considerar a Imaculada Conceição como um sinal do advento que nos incentiva a desejar e a preparar a vinda de Cristo que celebramos no Natal. Através da formosura espiritual de Nossa Senhora, Deus dá a conhecer a salvação, como cantava o salmo responsorial.
A primeira leitura do livro do Génesis ensina-nos que todas as criaturas necessitam e anseiam pela salvação. Desde as origens, a humanidade experimenta amargamente a força do mal. O pecado torna-se presente logo em Adão e Eva e vicia as relações humanas entre eles e deles com Deus. Adão esconde-se, tem medo do Criador, acusa Eva sua mulher, atribui o mal a outros mas não reconhece o seu. Eva segue a mesma perspectiva. A leitura do Génesis mostra-nos, assim, como desde o início, o pecado condiciona a relação com Deus e com o próximo.
O pecado original acompanha a história da humanidade e multiplica-se, tornando-se uma força que influencia a forma de ver e de agir de todas as pessoas. Manifesta-se no egoísmo, no orgulho, nas divisões, na desconfiança, nos desentendimentos, na violência, na infidelidade, na opressão. Todos pecamos, embora tenhamos dificuldade em descobrir o nosso pecado e sejamos mais prontos a notar as faltas dos outros e da sociedade. A própria distinção entre bem e mal esbate-se na consciência das pessoas e impede o percurso para a santidade.
No entanto, a força do mal não domina o mundo e as pessoas. Na verdade, o texto do Génesis narra-nos a promessa da vitória da santidade e da fidelidade: “A descendência da mulher te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. A ferida no calcanhar dificulta o caminho para a Deus mas a humanidade, a descendência da mulher, pela força da salvação de Jesus Cristo, manifestada na Imaculada Conceição de Nossa Senhora, esmagará o poder da iniquidade. A Imaculada Conceição é, por isso, uma garantia da promessa da vitória da humanidade sobre o pecado e um modelo que nos incentiva no caminho da salvação.
No evangelho, Maria é designada a “cheia de graça”. É a identidade de Nossa Senhora. Totalmente moldada pela graça de Deus, não colocou qualquer obstáculo à acção santificadora do Espírito Santo. Torna-se, assim, a imagem perfeita da santidade dos filhos de Deus. Nela resplandece em plenitude a luz de Cristo e através dela irradia no mundo, como a luz do sol se reflecte e irradia através da lua. A perfeição da graça transborda de Nossa Senhora para a Igreja, para os fiéis e para toda a humanidade. Deste modo, a “Cheia de graça” é para nós um modelo e um incentivo para que a luz de Cristo, através o nosso testemunho, resplandeça no mundo: “Brilhe a vossa luz diante dos homens”.

Associada à obra de Cristo, a Imaculada é uma bênção para todo o povo de Deus: “Bendito seja Deus que nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo” ouvimos na segunda leitura, colhida da Carta aos Efésios. A bênção de Deus é a herança espiritual a que todos temos acesso. Garante-nos a benevolência de Deus, a eleição e consagração para sermos “santos e irrepreensíveis em caridade, na Sua presença”. A bênção que, no Antigo Testamento, era um privilégio para poucos eleitos, em Cristo tornou-se um dom concedido a todos.
Maria Imaculada guia-nos no caminho do Advento para esperarmos e prepararmos a salvação. Como os justos e patriarcas do Antigo Testamento esperaram a vinda de Cristo, também nós hoje necessitamos e pedimos a salvação. “Ó nuvens chovei do alto e apareça a salvação que Deus nos traz escondida em humano coração” rezamos num hino do Advento. No coração de Cristo e no coraçãode Mariatorna-se visível e acessível a salvação. Que Nossa Senhora da Imaculada Conceição nos inspire no caminho do Advento para vencermos as forças das trevas e nos elevarmos à santidade dos filhos de Deus.

+ Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém

Igreja Catedral de Santarém, 8 de Dezembro de 2009



«Agora manifestou-se a graça de Deus,
fonte de salvação para todos» (Tit 2,11)




Neste tempo de graça, deixemos que ela converta os nossos corações para, também nós podermos encontrar O Deus Menino.


da mensagem de Natal que me enviou o meu Reitor.


Um Santo e Feliz Natal a todos!

domingo, 18 de Outubro de 2009

Acabou o primeiro mês e é tempo de balanço...

Desde 7 de Outubro que vivo numa nova casa, rodeado de pessoas que não conhecia... Resumem-se, agora, à família que tenho por perto nas alegrias e tristezas, àqueles que cuidam de mim quando estou doente e com quem falo quando algo está mal...

Na sua exortação apostólica Pastores dabo vobis, João Paulo II recomendava que o seminário fosse uma "Comunidade onde predomina a amizade e a caridade, de modo a assemelhar-se o mais possível a uma família". Passado um mês, percebo que é isso mesmo... Uma comunidade em de amigos que estão ao serviço uns dos outros e onde predomina a caridade, o amor...Não o amor eros, como é óbvio. Mas o amor fraterno, de irmãos, capazes de se corrigirem uns aos outros na verdade. Capazes de rir não de alguém mas com esse alguém que despejou um iogurte líquido em cima da camisa e da gravata que ia levar à Missa, dois minutos antes de sair de casa. (Isto nunca aconteceu, mas não queria contar coisas demasiado concretas para não ferir susceptibilidades...
É certo que damos as nossas turrinhas de manos... É certo que às vezes se torna complicado aturar o X, o Y ou o Z (por aqui nomes era feio XD).
Mas cá estamos com vontade para continuar. E porque Deus aqui me quer.
E porque estou em formação para ser padre, e porque estamos em Ano Sacerdotal, aqui fica uma oração de João Paulo II... Rezem-na pelos Padres e Seminas deste mundo...

Maria,Mãe de Jesus Cristo e Mãe dos sacerdotes recebei este preito que nós Vos tributamospara celebrar a vossa maternidadee contemplar junto de Vós o Sacerdóciodo vosso Filho e dos vossos filhos,ó Santa Mãe de Deus.
Mãe de Cristo,ao Messias Sacerdote destes o corpo de carnepara a unção do Espírito Santoa salvação dos pobres e contritos de coração,guardai no vosso Coração e na Igreja os sacerdotes,ó Mãe do Salvador.
Mãe da fé,acompanhastes ao templo o Filho do Homem,cumprimento das promessas feitas aos nossos Pais,entregai ao Pai para Sua glóriaos sacerdotes do Filho Vosso,ó Arca da Aliança.
Mãe da Igreja,entre os discípulos no Cenáculo,suplicastes o Espíritopara o Povo novo e os seus Pastores,alcançai para a ordem dos presbíterosa plenitude dos dons,ó Rainha dos Apóstolos.
Mãe de Jesus Cristo,estivestes com Ele nos inícios da Sua vida e da Sua missão,Mestre O procurastes entre a multidão,assististe-l'O levantado da terra,consumado para o sacrifício único eterno,e tivestes perto João, Vosso filho,acolhei desde o princípio os chamados,protegei o seu crescimento,acompanhai na vida e no ministérioos Vossos filhos,ó Mãe dos sacerdotes.
Amen!

E que Deus vos dê a Paz mas nunca vos deixe em Paz!

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Sacramento da comunhão

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Halleluya

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Trabalho Apostólico

Dia 2 no Fim-do-Mundo. O meu colega tem algum receio em lá ir. Eu nem por isso. Hoje, fizemos a viagem a pé. Sem ninguém a meter-se connosco. Como eu já esperava. À chegada, um compasso de espera: as crianças ainda não chegaram da escola. Quando chegam, ui... que festa! "Luís, hoje vai ser você a dar-nos explicação?" Sim, era eu. Euforia geral, mas minha e deles. Afinal, aqueles meninos de ninguém (o de alguém, graças a Deus)parecem gostar de mim. E eu deles. Noto em alguns uma carência afectiva enorme.

Ajudo no lanche. Um iogurte e umas bolachas a cada um. Os bolos de arroz que vieram do Banco Alimentar já estão secos demais para serem servidos. Ainda assim, eles perguntam por eles. E comem. Porque em casa, bolos de arroz deve ser coisa rara. E eu penso... Eu nunca comprei nenhum bolo de arroz. Porque, digo eu "não gosto..." Mas os meninos do fim do mundo comem-nos... secos...

Finalmente, chega a minha vez de entrar em cena. Explicações. Descubro que já não sei fazer contas de dividir. :blush: Uma monitora do ATL explica-me... E aí vou eu por os meninos a fazer contas... E ensino mais umas coisas sobre o sistema digestivo... Aí, outra conclusão, o servo de Deus tem de saber de tudo para O servir... Até de Matemática de Primeiro Ciclo e de Estudo do Meio... É giro e vale a pena pensar nisso.

Depois da explicação, outra parte que em muito me traz prazer... jogar Monopoly com um jovem. Ele afirma ter 17 anos. Não lhe dou mais de 15. Diversão. De repente, olho para o relógio e apetece-me parar no tempo... São 18h15, hora de saída... O regresso é a pé e a Missa do Seminário começa às 19h00... De sorriso rasgado regresso a casa... Com a firme ansiedade que volte a próxima semana para amar os meninos de ninguém, os pequeninos de Deus...

sábado, 12 de Setembro de 2009

A minha nova vida

Tantas coisas poderia eu aqui contar sobre a minha vida no Seminário... Mas mais importante do que isso, é deixar aqui um lamiré do que se passou no fim-de-semana antes... Senti na pele, e pela primeira vez, o amor de um povo. Os meus queridos co-paroquianos de quem passei o fim-de-semana a despedir-me entre abraços e sorrisos, beijos e lágrimas (mais que muitas)...

Mas o abraço essencial (sem contar com a família, que se revela a cada dia a pedra basilar da minha vida) foi o dos meus Taus... Grupo que me deu a conhecer a essência da Fé, grupo que amo e pelo qual rezo a cada instante... Um jantar de despedida que acabou em lágrimas e lágrimas, à medida que os ia abraçando... a carta que me leram em plena Missa de uma Festa com imensa gente, as prendas inesperadas e lindas...

Aqui fica essa carta, como prova de um amor... Quanto à resposta, aguardem-na que ela virá a seu tempo...

CARTA A DOIS GRANDES AMIGOS


Bons amigos aparecem de lado nenhum, sem serem procurados ou planeados. Simplesmente aparecem e, como se ainda não bastasse, oferendem-nos, todos os dias, momentos que desejamos para sempre guardar na memória e, sobretudo, no coração.
Neste momento, dois grandes amigos que do nosso grupo fazem parte, estão prestes a seguir o seu caminho, caminho esse que trará uma mudança nas suas vidas e, por consequência, na vida de todos nós.
Por esta mesma razão, João e Luís, não poderíamos deixar de vos dedicar umas palavras que, embora simples, pretendem reflectir aquilo que sentimos por vocês.
Se pensarmos bem, o mundo é feito de pessoas que, no meio da multidão, estão ou se sentem sozinhas, tais ilhas à deriva neste mar sem fim.
Mas Deus faz coisas maravilhosas, e, por isso mesmo, com a sua “caneta da vida” cruzou os nossos destinos e fez com que este grupo nascesse.
Desde então, muitos foram os momentos que partilhámos e nos quais rimos, choramos e aprendemos, sendo que em todos eles vocês conseguiram destacar-se, conquistando o nosso afecto, cultivando a nossa amizade e levando-nos a atentar naquilo que vocês são na vossa verdadeira essência, sem máscaras ou estereótipos.
Ousamos afirmar que fomos, somos e seremos vossos companheiros de jornada: hoje ou amanhã, para o bem e para o mal estaremos sempre aqui com o mesmo abraço e o mesmo sorriso.
Nos próximos tempos, a saudade será a palavra de eleição, e as memórias do que já passou uma constante, mas é nesse momento que se fecharmos os olhos estaremos juntos.
Talvez nos tenhamos excedido um pouco nas palavras, mas todas elas são poucas para dizer o quanto gostamos de vocês e lembrem-se sempre: tal como diz o Vaticano II “A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus”.
Adoramos-vos João e Luís, rezaremos sempre por vocês. São os donos de um grande pedacinho do nosso coração.


GRUPO TAU